A Estrada



Aqui está mais uma parte da saga "Anos Dourados do Retiro dos Padres"

A Estrada

A viagem era longa, saindo de Sapucaia do Sul tinha que pegar a RS-118 por uns  30 km e ir até Gravataí para entrar na Freeway (BR-290) até Osório e então entrar na BR-101 até Torres, na divisa do estado com Santa Catarina , o que dava mais uns 200km , até ai já eram umas duas horas e meia de viagem com a Belina motor 1.6 a álcool carregada até o teto e puxando o reboque a velocidade média de 90 km/h. De Torres entrávamos em Santa Catarina, o que já era uma aventura, dali em diante parecia que estávamos em outro mundo, o ar , a terra , as estradas , as pessoas , era tudo diferente. Lembro que o pai gostava de parar em Sombrio ou Araranguá, que fica a uns 50 km de Torres para descansar um pouco , esticar as pernas , tomar café , ir ao banheiro,  checar os cabos que amaravam a lona do reboque e outras coisas que a gente faz na estrada , sabe como é né ? Quando chovia o medo era constante de que entrasse água no reboque e estragasse alguma coisa importante para acampar, como o compacto (fogão e geladeira) por exemplo, o pai ficava preocupado e por consequência todos nós também. Daí em diante parecia que a gente não chegaria nunca, era estrada que não acabava nunca, centenas de caminhões nos dois lados da pista que era única até chegar lá. Lembro que quando estávamos nessa parte da viagem normalmente estava amanhecendo, o sol subindo no horizonte atrás das árvores que beiravam a estrada  transformando tudo num espetáculo de cores douradas, verdes e azuis que meus olhos assistiam através do vidro traseiro do carro junto com meus irmãos. Olhos curiosos e ansiosos por mais um verão de sonhos no paraíso chamado Retiro dos Padres.

***

Seguindo viagem passávamos por várias cidades com nomes engraçados com as quais nos divertíamos lendo a placas, sempre procurando por alguma que nos informasse a distância até Florianópolis. A excitação era geral quando chegávamos perto da “misteriosa “cidade chamada Tubarão, ainda mais quando passávamos por cima da ponte sobre o Rio Tubarão, todo ano eram as mesmas perguntas:
-          Será que tem tubarão nesse rio ?
-          Mas tubarão não vive no mar ? Será que ele sobrevive em água doce ?
-          Mas se não tem tubarão , porque a cidade se chama assim ?
E mistério sobre a cidade elasmobrânquia seguia por mais um ano, pois ninguém jamais soube nos explicar o porquê desse nome.
 Mais 30 km depois de Tubarão chegamos a Laguna, uma ponte enorme que cruza a Lagoa Imaruí, na verdade não é uma ponte, mas um aterro onde construíram uma estrada, a ponte na verdade é paralela a estrada com o trilho de um trem que está abandonada a muito tempo, desde essa época em que eu era um menino. Lembro que Laguna era famosa por seus frutos do mar e pelo preço dos camarões que são vendidos na beira da estrada até hoje. Um pescador coloca um monte de camarões amarrados numa linha em uma vara de pesca , como se estivessem fisgados num anzol mesmo e ficam balançando eles quando os carros passam, incitando assim os motoristas a parar e comprar alguns pacotes do crustáceo fresquinho que fica guardado dentro do isopor ao lado de sua cadeirinha. Os camarões de Laguna eram sempre uma delícia ... Quando o pai e a mãe decidiam comprar já sabíamos que ia ser uma das primeiras refeições quando o acampamento estivesse pronto. Hoje em dia existe uma ponte moderna para atravessar o canal de Laguna.
E assim seguia a viagem, meu pai dirigindo sem parar, a mãe ao seu lado no banco da frente e eu e meus irmãos no banco de trás da Belina branca. Próxima cidade que chamava atenção por onde passaríamos era Florianópolis, também conhecida como “Ilha da Magia” ou “Desterro”. Quando começava a aumentar a quantidade de casas e o movimento de carros já sabíamos que a capital do estado estava perto. Eu, particularmente esperava atentamente o momento de passar pela frente de um shopping chamado Itaguaçu que fica na entrada da ilha, esse era o ponto que marcava a passagem por Florianópolis, depois de passar por ali estávamos oficialmente  passando pela estrada que leva a ponte Hercílio Luz e liga o continente  a ilha.
A excitação aumentava dentro do carro a medida que nos aproximávamos, cada quilômetro conquistado fazia com que procurássemos com mais atenção por mais placas que indicassem a distância para chegar a Porto Belo.
Nosso próximo ponto de espera seria a ponte de Tijucas, a famosa ponte que cruza o rio com o nome da cidade. Ao cruzar essa ponte sabíamos que estávamos na reta final, somente mais alguns minutos para finalmente dobrar a direita e entrar na península de Porto Belo. Ainda lembro do casarão antigo, caindo aos pedaços, do outro lado da ponte de quem vem do sul  que deve estar lá até hoje e servia de marcação para ter certeza que realmente estávamos chegando perto do paraíso.
A entrada de porto Belo era uma estrada comprida de terra sem nada  ao redor a não ser mato. Após uns dez minutos dirigindo chegávamos ao centrinho da cidade, onde havia uma praça , alguns restaurantes e a igreja, seguindo estava a baia , a ilha de Porto Belo e a marina. Nesse momento nos deparávamos com um dos pontos mais difíceis do 570 km de viagem. Subir o morro de Porto Belo !! Era o primeiro desafio que a Belina deveria enfrentar para chegar, um morro muito alto, estrada de terra , sem acostamento, iluminação ou qualquer outra estrutura que uma estrada possa oferecer.  Lembro como se fosse hoje do pai acelerando para conseguir embalo para subir, de todas as vezes que fomos pra lá acho que somente uma vez ele teve que voltar de ré porque não conseguiu. E se estivesse chovendo, ou com a pista molhada, nem pensar, não dava pra subir.
Depois de superar o primeiro desafio éramos recompensados com a extasiante vista da chegada a Bombas, aquela imensidão de  mar verdinho a nossa frente era um presente para quem tinha esperado o ano todo para viajar e só servia para nos deixar com mais vontade de chegar logo no Retiro dos Padres.
Seguindo viagem... descendo o morro  dirigimos pela longa reta da estrada de Bombas até chegar linha divisória da praia de Bombinhas, o que divide é uma praia chamada Ribeiro e que pouca gente sabia que existia naquela época, pois a estrada passa por trás da praia, também é um pequeno morro que tem que subir para finalmente chegar.
Mas ainda não acabou, tinha mais um desafio pela frente, o pior de todos, o que o pai sempre dizia que era o mais difícil de subir:  A subida da lomba que leva para a praia da Sepultura e do Camping Retiro dos Padres.
E lá íamos nós novamente: descer todos do carro, a essas alturas os pneus já estavam murchos para facilitar a subida, pegar embalo e tentar subir, normalmente a Belina subia na primeira tentativa, mas as vezes a coisa ficava feia, ela empacava e não subia nem com reza forte. Ali sim várias vezes o pai teve que descer de ré com o reboque para pegar embalo novamente, não vou descrever aqui todas a manobras, truques e segredos para subir uma lomba de terra molhada com um carro carregado com reboque, mesmo porque hoje em dia não é mais necessário para chegar ao camping está tudo asfaltado desde Porto Belo até lá.
Após essa epopeia, chegávamos ao camping !! Tinha uma portaria com uma cancela na entrada onde os campistas tinham que se registar, cada barraca recebia uma plaquinha com um número que deveria ficar exposta na frente , como se fosse o número de uma casa mesmo.
Ai então começava a função de armar o acampamento. Primeiro estacionar o carro e apreciar a vista, dar uma caminhada pelo camping para matar a saudade, ver o que tinha mudado, melhorado ou piorado de um ano para o outro, criticar mudanças e etc. Nós nos sentíamos como parte daquele lugar , afinal de contas  éramos dos campistas mais antigos por ali, 1980 foi a primeira vez que praticamente descobrimos o Retiro.
Escolher o melhor lugar para montar acampamento é uma tarefa que leva algum tempo pois deve-se levar em conta diversos fatores como: sombra, inclinação do piso/solo, se a área é alagadiça durante as chuvas, vista para o mar entre outros segredos. Mas essa tarefa não se tornava difícil nem chata, pois assim que começávamos a caminhar pelo local começávamos também a reencontrar e cumprimentar os amigos de outros anos e num instante era uma alegria só! Histórias para contar, novidades, mentiras, bebidas, meu pai gostava de fazer diferentes tipos de cachaças durante o ano para levar e beber com os amigos de acampamento. Imagine então a alegria dos amigos dele quando chegávamos !! Muitas vezes algumas cachaças não passavam do primeiro dia de acampamento!
Depois de escolher o local começava a função: abrir o reboque, colocar tudo pra fora, esticar as lonas para fazer o piso da barraca, começar a montar a armação de tubos de metal que compõe o esqueleto dela para depois jogar a lona por cima, montar os quartos, amarrar e prender a barraca com as estaquinhas que são cravadas na terra, montar a cozinha, colocar os colchonetes, montar os armários para guardar a comida, geladeira, fogão e etc...
Hoje eu penso e realmente não sei como o Pai e a Mãe aguentavam aquela maratona toda, era muita vontade de acampar !!




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