A Rotina no Camping

Depois de a barraca estar armada, as coisas todas organizadas é que começava a gostosa rotina de férias no camping.
Acordar cedo, mesmo porque não dá pra dormir até tarde dentro da barraca, assim que bate o sol começa a esquentar. 
Encontrar os amigos  no bar e decidir para qual praia ir, ficar no Retiro ou ir para a Sepultura ? Se aventurar até 4 Ilhas ? Ou quem sabe os nossos pais tinham planos em mente de ir conhecer algum local diferente ? Tudo era aventura e diversão !!

A Praia da Sepultura estava inevitavelmente nos nossos planos, íamos pra lá sempre que podíamos, seja na parte da manhã ou a tarde. O lugar é um paraíso para crianças e iniciantes no mergulho de snorkel. Águas claras e rasas com muitas formações rochosas subaquáticas que acolhem centenas de espécies marinhas de vertebrados e invertebrados de diferentes formas, tamanhos e cores.

A diversão era completa quando chegávamos todos na areia da praia colocávamos nossas nadadeiras, máscaras e saíamos a explorar o fundo do mar, observando tudo com grandes olhos inocentes e esperançosos ao mesmo tempo com certo receio do que poderíamos encontrar pela frente ou embaixo de cada uma daquelas rochas encrustadas de corais e esponjas. Mas aquele era o momento auge de estar em Santa Catarina, em Bombinhas, acampados no Retiro dos Padres, poder estar ali , flutuando no mar azul , cristalino das águas da Praia da Sepultura , interagindo com a vida marinha local , sentindo –se um explorador, um mergulhador !!

***

Depois de cansar de ficar na água, ou ficar com frio, era hora de voltar para o camping para almoçar.
A tarde chegava e com ela o pessoal ia se reunindo no bar do camping e se preparando para  jogar vôlei na quadra de areia. Era praticamente um ritual sagrado o jogo todos os finais de tarde. Os times eram feitos na hora com quem estivesse afim de jogar, mas não era raro acontecer um time de argentinos contra brasileiros...
Nessa época a economia da Argentina ia muito bem, nossos hermanos vinham para Santa Catarina em peso e chegavam muitas vezes a intimidar a gente com sua cultura e personalidade forte.
Nos momentos do jogo entre os dois países, rolava uma certa tensão, e a torcida era forte, mas independente do resultado éramos todos amigos nos divertindo em um paraíso de férias independente da nacionalidade. A alegria de estar naquele lugar superava qualquer desavença entre nacionalidades.

A noite chegava e com ela a fila nos banheiros para tomar banho... Sim , existiam seis ou sete chuveiros para o camping todo naquela época, um dos banheiros era o do costão, com três ou quatro e os outros três ficavam em uma porta estreita no bar  que servia também de banheiro improvisado na alta temporada.  Ora, em pleno verão a camping chegava a abrigar até cem barracas , se formos contar que cada barraca tinha em média três pessoas, tínhamos trezentas pessoas querendo tomar banho no horário entre as seis e oito da noite todos os dias em um número reduzido de chuveiros. Resumindo, era normal ficar até uma hora esperando na fila para tomar banho. Ah, sim ! Sem esquecer que as vezes faltava água e a espera era em vão, banho só no outro dia, quando o caminhão pipa viesse ...

Depois da missão do banho concluída vinha a janta e o encontro no bar com os amigos para inventar alguma coisa para fazer... As opções eram muitas, podíamos ficar só ali mesmo conversando e escutando música no “micro system” do Vitor até que a pilha acabasse (para quem não sabe, era um aparelho de som com rádio e toca-fitas que funcionava a pilha e eletricidade), ou jogar cartas, jogos de adivinhação, passear na praia com lanternas, fazer fogueiras, luaus, se aventurar até Bombinhas pela assustadora estrada sem iluminação a pé, ou até mesmo ir a Quatro Ilhas no famoso bar chamado Submarino Amarelo. Isso mesmo , nós íamos em bares !! Mesmo com a nossa idade , nossos pais nos liberavam para ir sem problemas, sem preocupações, sem paranoias...

Lembro de uma vez que estávamos indo para Quatro Ilhas em um grupo de umas dez pessoas, a estrada até lá era escura e assustadora, com apenas um poste de iluminação em frente a antiga casa do seu Naro, um morador antigo da região... A gurizada resolveu pregar um susto no em um amigo que estava afim de uma menina e não parava de contar vantagens e histórias de coisas que tinha feito e de como era corajoso... Quando saímos da estrada geral de Bombinhas e entramos na rua que sobe para  a Pousada do Arvoredo e atravessar para o outro lado do morro,  onde tudo ficava realmente um “breu”, alguns dos nossos foram na frente e se esconderam no meio das moitas, enquanto o resto de nós foi se dispersando de modo a deixar ele e a menina a sós... Quando ficou um silêncio na escuridão os que estavam na moita começaram a atirar pedras na rua e fazer  barulhos esquisitos, deixando assim o casal mais assustado ainda. A história se seguiu alguns minutos seguindo-os pela rua escura, até que num momento o nossos amigos pularam da moita e começaram a gritar como loucos atrás deles !! A menina que estava com o corajoso cortejador meteu o pé e saiu correndo enquanto, ele ficou paralisado de medo gritando com terror estampado em sua cara !! O mais engraçado de tudo foi que assim que percebeu que tudo era uma brincadeira para assustá-los , ele fez uma posição de defesa com os punhos fechados e começou a gritar alto: “pode vir , pode vir “!! Para mostrar para a menina que ele era realmente corajoso !!  Como se nós não tivéssemos visto a primeira reação dele quando pularam da moita para assustá-lo !!
Nós nos divertíamos muito nessa época !!



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