Anos Dourados do Retiro dos Padres - Quarta Parte
Eu, Vitor e o Borgo a
Bordo do Thunder
Eis que uma vez em pleno verão eu , o Vitor
e um grande amigo, praticamente um irmão, chamado Emerson Borgo resolvemos nos
aventurar com o Thunderwhite, o Fusca branco do Borgo, até o Retiro dos Padres
para acampar por nossa conta... O Michael iria mais tarde de carona com um
professor da escola e nos encontraria lá.
A aventura começou como sempre com a
arrumação do carro, como o espaço para bagagens no Fusca é reduzido tivemos que
fazer mágica para colocar tudo que fosse necessário para ficar acampado por
duas semanas sem os nossos pais para dar suporte. Detalhe: nenhum de nós tinha
acampando sozinho antes e tampouco sabíamos cozinhar...
Realmente não lembro dos detalhes, pois faz
muito tempo, mas alguns fatos merecem ser relatados aqui. Como no dia em que o
Borgo foi visitar a tia dele que morava em Balneário Camboriú e trouxe um bolo
de banana de presente pra nós. Antes de concluir esse “causo”, preciso explicar
um fato que aconteceu alguns dias antes.
Perto de onde tínhamos colocado a barraca
havia uma fonte de água potável que não pertencia ao camping, mas ao terreno ao
lado e por isso ficava do outro lado de uma cerca que separava os dois.
Eventualmente alguém (do camping) ia buscar água na fonte, e deixava a tampa
que existia para proteger da entrada de folhas de árvores aberta (era uma tampa
pesada de concreto). Quando o zelador que cuidava do terreno ( um homem grande,
mal encarado que sempre andava com um facão na cintura) passava por ali e via
que a tampa da fonte estava aberta ficava furioso, xingava e ameaçava que se pegasse o sujeito
que fazia aquilo ia cortar a orelha dele e jogar pra cachorros !! Ora, nosso
amigo Pablo , argentino e vizinho de barraca assistiu a cena toda um certo dia
quando o tal zelador malvado apareceu e fez tais ameaças e ficou
impressionadíssimo com aquilo ! Imediatamente ele começou a repetir a mesma
frase: “vou te cortar a orelha, vou te cortar a orelha!”. Incialmente com cara de assustado, um pouco
tímido, com o tempo percebendo que aquilo soava muito engraçado com o sotaque
argentino ele começou a dizer isso o tempo todo.
Voltando ao bolo de banana da tia do
Borgo...
Na volta de Balneário Camboriú para
Bombinhas, que leva em torno de trinta minutos, talvez um pouco mais com o
Thunder, nosso excelentíssimo amigo Emerson resolveu transportar o bolo no
porta malas do carro. Para quem não sabe o porta malas do Fusca fica na frente
do automóvel, justamente em cima do tanque de gasolina. Pois bem, para quem não
entende muito de mecânica, vou explicar rapidamente que todos os tanques
possuem um suspiro para que o ar possa sair quando a gasolina entrar, e
justamente o Fusca sempre teve um problema crônico de vazamento de gasolina
pelo suspiro, especialmente quando era abastecido!
Realmente não lembro se ele tinha enchido o
tanque, ou foi por causa do balanço das péssimas condições da estrada, só sei
que o tão desejado bolo de banana da tia do Borgo chegou no camping com gosto
de gasolina...
Como havia mencionado anteriormente, nenhum
de nós sabia cozinhar, estávamos vivendo basicamente de miojo, macarrão com
sardinha, atum e do restaurante do camping. Ou seja, resumindo, estávamos
sempre com fome !
Quando o Borgo chegou com o bolo na mãos ,
enxergamos um troféu, um objeto de desejo, um sabor caseiro feito com carinho,
que nos reconfortaria e saciaria nossa fome. Quando mordi o primeiro pedaço
veio a decepção, um cheiro e gosto forte de gasolina fazia com que aquela
iguaria se tornasse impossível que ingerir. Imediatamente começamos a nos
perguntar o que teria acontecido (pois até o momento não sabíamos que ele tinha
trazido o bolo em cima do tanque), então que ele explicou o motivo do
desastre...
Nosso amigo argentino Pablo que observava curioso
todo o acontecimento ( ele estava acampado com os pais , então não tinha
problemas quanto a alimentação) ao se dar conta do que tinha acontecido não
tardou em começar a xingar o Borgo com seu melhor portunhol : “ Desgraciado,
estragou toda comida !! Vou te cortar a orelha !! Desgraciado!”.
A cena foi tão engraçada, rimos tanto, que
ficou pra história do camping, repetida diversas vezes quando lembramos daqueles
bons tempos em que éramos incondicionalmente felizes
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